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Apicultura enfrenta desafios e perde produtores no Alto Uruguai, alerta especialista

Publicada em: 17/03/2026 08:55 -

Engenheiro agrícola e apicultor Marcio Peruzzolo aponta redução no número de produtores, dificuldades econômicas e mudanças climáticas como fatores que impactam a atividade na região

Celebrado em 17 de março, o Dia Nacional do Mel chama a atenção para a importância das abelhas e da apicultura na produção de alimentos e na preservação ambiental. No entanto, na região de Erechim e do Alto Uruguai, o cenário da atividade preocupa especialistas e produtores.

 Segundo o engenheiro agrícola e apicultor Marcio Peruzzolo, proprietário da Apicultura Monteclaro e com mais de duas décadas de experiência no setor, a apicultura vem enfrentando um processo de redução no número de produtores ao longo dos últimos anos.

 “A apicultura na região é uma atividade cultivada principalmente pela agricultura familiar e pequenos produtores, muitas vezes como uma fonte complementar de renda. Cerca de 90% dos apicultores estão ligados a esse perfil”, explica.

 De acordo com Peruzzolo, a atividade vem perdendo espaço gradativamente, principalmente por fatores como o êxodo rural e as mudanças climáticas. “Ano após ano a apicultura vem encolhendo. Muitos jovens acabam não permanecendo no campo e, com isso, atividades que eram mantidas pelos pais ou avós acabam sendo encerradas”, destaca.

 Ele lembra que, há cerca de dez anos, Erechim e a região do Alto Uruguai contavam com aproximadamente 500 apicultores atuando profissionalmente. Hoje, esse número teria caído para menos de 200 produtores, evidenciando um declínio significativo na atividade.

Região de mata favorece produção

 Peruzzolo explica que a apicultura está diretamente ligada à preservação ambiental. “O apicultor é um amigo da natureza. As abelhas dependem da diversidade de flores e da preservação das matas nativas”, afirma.

 Por esse motivo, a produção mais expressiva de mel no Alto Uruguai costuma ocorrer em municípios localizados próximos ao Rio Uruguai e em áreas com maior presença de mata ciliar e relevo acidentado. Cidades como Maximiliano de Almeida, Pain Filho e Marcelino Ramos concentram um número maior de apicultores.

 Em Erechim, segundo o especialista, a apicultura não se desenvolveu com a mesma intensidade. “O município não possui uma apicultura tão forte quanto outras regiões próximas ao Rio Uruguai, onde há mais áreas de mata e condições naturais favoráveis”, explica.

Produção e mercado

 Em relação ao mercado, Peruzzolo observa que a produção regional já teve momentos mais expressivos. “Já houve períodos em que a região do Alto Uruguai produziu cerca de 600 toneladas de mel”, lembra.

 Atualmente, no entanto, parte significativa da produção ainda ocorre de forma informal, sem registro oficial. Além disso, o consumo interno de mel ainda é limitado. “Muitas pessoas veem o mel apenas como remédio, quando na verdade ele é um alimento completo. Em muitos países ele é considerado essencial na alimentação”, ressalta.

 Hoje, cerca de 90% do mel produzido no Brasil é destinado à exportação, principalmente para mercados como Estados Unidos, Canadá e países da Europa. Porém, fatores externos também influenciam esse mercado.

 “A instabilidade comercial internacional e até conflitos e guerras acabam impactando a comercialização do produto”, observa.

Desafios da atividade

 Entre os desafios enfrentados pelos produtores estão questões técnicas e de manejo. Para Peruzzolo, a falta de investimento e de capacitação também interfere nos resultados.

 “No mundo, a média de produção gira entre 30 e 40 quilos de mel por colmeia. Já na região do Alto Uruguai essa média fica em torno de 12 quilos por colmeia, o que mostra que ainda há muito espaço para melhorar a produtividade”, explica.

 O uso de agrotóxicos costuma ser apontado como um dos problemas enfrentados pelas abelhas, mas o apicultor ressalta que a questão é mais complexa. “Não é o único fator. Existem vários elementos envolvidos, como manejo inadequado, falta de orientação técnica e pouco investimento na atividade”, afirma.

 Segundo ele, quando o trabalho é realizado de forma organizada e profissional, as perdas tendem a ser menores. “A apicultura precisa caminhar junto com a agricultura. Quando as colmeias são fortes e bem manejadas, as perdas são muito menores”, destaca.

Perspectivas para o futuro

 Apesar das dificuldades, o Brasil mantém posição de destaque no cenário internacional, sendo considerado líder mundial na produção de mel orgânico e figurando entre os dez maiores produtores do planeta.

 Mesmo assim, Peruzzolo acredita que a apicultura deverá passar por transformações nos próximos anos. “A atividade vai precisar se reinventar. São tempos desafiadores, mas também podem surgir novas oportunidades, principalmente se conseguirmos atrair jovens produtores e agregar valor à produção”, conclui.

 Para o especialista, incentivar capacitação, inovação e valorização do mel como alimento pode ser um caminho importante para revitalizar a apicultura na região e garantir que a tradição continue fazendo parte da história do Alto Uruguai.

 

Por Carlos Silveira / Jornal e Tv Bom Dia
Foto Arquivo pessoal

 

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